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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CHICA DA SILVA NASCEU NO ARRAIAL DE MILHO VERDE POR VOLTA DE 1732

  VÍDEO CHICA DA SILVA, POR JÚNIA FURTADO

video






Chica da Silva - Diamantina


JUNIA FURTADO(UFMG) ESCREVE SOBRE CHICA DA SILVA
Chica, a verdadeira

"Ao mito da mulata travessa se opõe a história de uma ex-escrava determinada que conseguiu superar a exclusão social."

Júnia Ferreira Furtado


      Desde o filme de Cacá Diegues, que marcou o Cinema Novo brasileiro na década de 1970, a figura lendária da escrava diamantinense Chica da Silva ficou imortalizada na personagem sensual, desbocada e travessa, representada pela artista brasileira Zezé Mota.Mas nem sempre foi assim. Sua história foi contada pela primeira vez por Joaquim Felício dos Santos, advogado em Diamantina e historiador nas horas vagas, no livro Memórias do Distrito Diamantino, publicado em 1868. Em suas páginas, Chica deixava as brumas que ocultavam o passado da região e entrava definitivamente na história.No entanto, a imagem de Chica da Silva construída por esse autor foi extremamente negativa, descrevendo-a como uma mulata alta, corpulenta, boçal e careca, sem atrativos que justificassem uma forte paixão. Era incompreensível, para Felício dos Santos, que uma escrava como ela pudesse despertar a atenção de um homem branco e bem situado, no caso o contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira, e chegar a uma posição de destaque na sociedade local. 


    Até meados do século XX, a verdadeira aparência de Chica da Silva ainda gerava controvérsias. Alguns afirmaram que, quando Felício dos Santos escreveu, ainda existiam pessoas no Tejuco que a haviam conhecido e não poderiam enganar-se sobre sua aparência. Em 1924, Nazaré Meneses, autora das notas de uma nova edição das Memórias do Distrito Diamantino, afirmou que ela não poderia ser feia ou asquerosa, pois despertara o amor do jovem contratador. Pouco depois, o jornalista Antônio Torres, ao fazer apontamentos sobre a história do arraial do Tejuco, já então cidade de Diamantina, registrou que o cadáver de Chica foi encontrado, anos depois da sua morte, ainda conservando "a pele seca e negra", e que os passantes se horrorizavam e fugiam ao ver o corpo incorrupto da ex-escrava. A partir daí, a vida de Chica da Silva foi retratada em livros de história, roteiros turísticos, romances, peças de teatro, músicas, poemas, filmes e novelas. Sem se basearem em uma pesquisa histórica sólida, essas produções criaram novos estereótipos, descrevendo uma Chica distante da mulher de carne e osso que viveu no arraial do Tejuco, dos anos 30 a 90 do século XVIII.



   Chica nasceu por volta de 1732, no arraial do Milho Verde, a meio caminho entre o Tejuco e a Vila do Príncipe-hoje cidade do Serro. Era mulata clara, filha de negra com homem branco, fato comum na sociedade da época, em que as mulheres, principalmente brancas, eram raras. Sua mãe chamava-se Maria, escrava africana oriunda da Costa da Mina, e seu pai o português Antônio Caetano de Sá. Ainda jovem, foi vendida a Manuel Pires Sardinha, proprietário de lavras e médico no Tejuco. Em 1751, teve o primeiro filho, Simão, com seu próprio senhor. Ela era então muito jovem, e Manuel Pires Sardinha quase um sexagenário. No registro de batismo, ele não assumiu a paternidade de Simão, mas deu-lhe a alforria. Mais tarde, em seu testamento, reconheceu Simão como um de seus herdeiros, mesmo já tendo dois outros filhos.



    João Fernandes de Oliveira nasceu em Mariana, em 1727, filho do sargento-mor do mesmo nome e de Maria de São José, natural do Rio de Janeiro, primeira esposa do sargento-mor. Estudou em Portugal, formando-se em cânones, na Universidade de Coimbra, e recebeu o importante título, comprado pelo pai, de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Tornou-se desembargador, ao ser nomeado para o Tribunal da Relação do Porto e, em 1763, juiz do Fisco das Minas Gerais. Em 1753, ele chegou ao Tejuco, como um dos arrematantes do quarto contrato efetuado pela Coroa para a extração dos diamantes. Sua trajetória refletia o processo de ascensão social que seu pai, antigo contratador, procurava garantir para o herdeiro. João Fernandes de Oliveira, o velho, apesar da enorme fortuna, alcançou apenas o título de sargento-mor, pelo qual era sempre referido. "Solteiro, de boa vida e costumes" e coberto de nobreza, João Fernandes, surpreendentemente, envolveu-se com Chica da Silva, com quem teve relação estável - mas não oficial, pois, na época, o casamento era reservado apenas aos indivíduos do mesmo status social - e de fidelidade, ainda que tivessem que viver separados em seus últimos anos, ela no Tejuco e ele em Lisboa. Chica da Silva teria entre 18 e 22 anos quando João Fernandes, então com 26, a conheceu. Jovem, tinha a beleza das mulheres mestiças descendentes das africanas oriundas da Costa da Mina. Ele a comprou de Manuel Pires Sardinha por 800 réis, e, no Natal do mesmo ano, a alforriou. Meses depois, em 1754, ficou grávida de João Fernandes. Em abril do ano seguinte, era batizada a primeira filha do casal, a mulata Francisca de Paula. 

    Embora registrada como de pai desconhecido, no documento Chica ostentou pela primeira vez o sobrenome Oliveira, em vez do habitual "Francisca, parda, escrava de..." O casal teve 13 filhos, tendo sido encontrados os registros de batismo de 11 deles. Em 1756, João, o primogênito. No ano seguinte, Rita e, dois anos depois, Joaquim. Em 1761, Antônio Caetano, seguido de Ana, Helena e Luísa. Em 1766, nasceu Maria, no ano seguinte Quitéria Rita e, em 1769, a caçula das mulheres, Mariana. Antônia nasceu provavelmente em 1765 e José Agostinho em 1770.



    Entre os padrinhos dos filhos de Chica e João Fernandes não havia autoridade importante da capitania ou mesmo do distrito, o que faz supor uma certa dificuldade do contratador em estabelecer alianças com representantes da Coroa. As crianças foram batizadas por importantes moradores do Tejuco, sinal provável de que a sociedade local aprovava aquela relação não oficial entre pessoas diferentes em suas condições sociais. Além de Manuel Pires Sardinha, que batizou a primogênita Francisca de Paula, apadrinharam as outras crianças o sargento-mor José da Silva de Oliveira, velho amigo do pai do contratador, e o coronel José Velho Barreto, importante fazendeiro e negociante por atacado no Tejuco. Seu tio Ventura Fernandes de Oliveira, estabelecido em Vila Rica, foi padrinho de Joaquim. Os demais padrinhos eram militares locais de baixas patentes, como o sargento-mor Antônio Araújo de Freitas, o capitão Luís Lopes da Costa, padrinho de Ana,Helena e Luísa, e os capitães Francisco Malheiros e Luís de Mendonça Cabral. 



    Francisca da Silva de Oliveira agia como qualquer senhora da sociedade. Educou todas as filhas no Recolhimento de Macaúbas, o melhor educandário das Minas na época. Em 1767, recolheu em Macaúbas as mais velhas - Francisca de Paula, de 12 anos, Rita Quitéria, de dez, e Ana Quitéria, com cinco - pagando por matrícula, no ano seguinte, o dote de 900 mil-réis em barras de ouro. As meninas levaram com elas, para as servirem em seu retiro, três escravas pardas e mais um casal, que ficava de fora. Contavam também com mais 60 mil-réis anuais, que João Fernandes pagou adiantado no primeiro ano, para o seu sustento. Em 1780, já estavam ali também outras quatro filhas do casal: Helena, Luísa, Maria e Quité ria. Esse ano foi decisivo na vida das moças. Como João Fernandes morrera em fins de 1779, Chica decidiu que todas voltariam ao seu convívio, apesar de não haver evidências de dificuldades econômicas, já que todas receberam dotes do pai, na forma de fazendas. Provavelmente Chica achou melhor prepará-las para o casamento do que manter os gastos com a iniciação à vida monástica. Outra hipótese é ter ela se inquietado com possíveis irregularidades no Recolhimento, pois, na mesma época, o bispo frei Domingos da Encarnação Pontevel havia proibido a livre entrada na Casa, visando a sua moralização. Também teriam influído em sua decisão a ausência do amparo financeiro paterno e a necessidade de encaminhar as filhas na vida. Chica e os filhos pertenceram às principais irmandades do Tejuco, centros privilegiados de reconhecimento social. O livre trânsito da mulata e da sua descendência nas diversas irmandades, inclusive de brancos, como as do Santíssimo, São Miguel e Almas, Carmo e São Francisco, mesmo depois da morte de João Fernandes, revelam que Chica conseguira a ascensão desejada. Ela era irmã nas confrarias de brancos, como as do Santíssimo, Terra Santa, São Francisco, no Tejuco, e Nossa Senhora do Carmo da Vila do Príncipe; de mulatos, como a das Mercês, e de negros, como a do Rosário, na qual chegou a ocupar cargos de direção, duas vezes como juíza e uma vez como irmã da mesa diretora. O primeiro filho, Simão Pires Sardinha, entrou para a irmandade de São Miguel e Almas em 1762, sendo também irmão do Santíssimo e das Mercês, e João Fernandes pertencia a São Miguel e Almas e foi irmão da Mesa da Irmandade do Rosário, ali ocupando o cargo de juiz de São Benedito. Já Francisca de Paula era irmã do Santíssimo, São Miguel e Almas, Carmo, São Francisco, Mercês e Rosário. 



    A morte do velho sargento-mor João Fernandes de Oliveira, em 1770, em Portugal, iria interferir de forma irreversível na vida de Chica e do desembargador João Fernandes no Tejuco. Em 1748, o sargento-mor casara-se em segundas núpcias com uma rica viúva, Isabel Pires Monteiro, num enlace arranjado pelo governador Gomes Freire de Andrade, seu amigo. Casamento de interesses, os nubentes estabeleceram um pacto pré-nupcial: a noiva incorporou seu patrimônio ao do marido e, em troca, quando da morte dele, caso não tivessem filhos, ela retiraria da herança apenas o montante correspondente aos seus bens. No entanto, poucos dias antes de o sargento-mor falecer, Isabel conseguiu que ele alterasse o testamento, concedendo-lhe o direito à metade dos bens do marido. João Fernandes deixou Chica com as crianças no Tejuco e retornou imediatamente a Portugal, para tentar anular o testamento. O arrendamento de inúmeros contratos de cobrança de impostos em Minas em parceria com o pai havia tornado os interesses de ambos indissociáveis. Nos últimos anos, o filho contribuíra para o enriquecimento da família e via a herança paterna como recompensa pela boa administração dos diversos contratos de extração de diamantes que administrara em seu nome, ou em sociedade. Foi esse o verdadeiro motivo da partida precipitada de João Fernandes para Lisboa, e não, como foi difundido, supostos conflitos entre o contratador e a Intendência dos Diamantes. A decretação do monopólio régio dos diamantes pela Coroa, com a criação, em 1771, da Real Extração, não significava retaliações pessoais contra o contratador, mas sim um efeito da política pombalina de fazer retornar ao controle da Coroa as riquezas de além-mar. 



    Ao retornar a Portugal, João Fernandes nomeou um tutor para as crianças e um representante junto ao contrato de exploração dos diamantes, além de redigir um testamento que garantia a herança aos filhos ilegítimos. Chica, por sua vez, também redigiu se testamento dispondo dos bens entre os filhos. Provavelmente já alfabetizada, assumiu o compromisso de garantir a educação e os cuidados com as filhas, enquanto João Fernandes levou para o reino os quatro filhos homens, além de Simão Pires Sardinha, o primeiro filho de Chica, que se responsabilizaria pelo futuro dos irmãos. Disposto a introduzir os filhos na corte, o excontratador ocultou as origens deles e sua relação com a ex-escrava, não por esquecimento ou ingratidão, mas, ao contrário, para dignificar a prole na sociedade hierarquizada do reino. Com isso, mesmo à distância, cuidava de Chica - a quem transmitira, no Tejuco, a posse de vastos bens - e de seus filhos e filhas. 



    No dia 16 de fevereiro de 1796, d. Francisca da Silva de Oliveira morria em sua casa, no arraial do Tejuco. Não era mais uma escrava parda sem nada de seu, mas uma senhora de "grossa casa", como se dizia, possuidora de imóveis e de escravos. O reconhecimento social ficou patente no sepultamento: ela foi enterrada na tumba número 16, no interior da igreja da Irmandade de São Francisco de Assis, que congregava a elite branca local. Em missa de corpo presente, com todos os ritos e sacramentos que distinguiam os irmãos, sua alma foi encomendada diante de todos os sacerdotes do arraial, paramentados com sobrepeliz e estola roxa.Ao terminar o ofício, dobraram os sinos e o corpo foi levado em procissão à sepultura, acompanhado pelos irmãos e pelos párocos, que carregavam velas acesas.No mês seguinte à sua morte, devem ter sido rezadas 24 missas em intenção de sua alma, na matriz de Santo Antônio, direito que adquirira ao se filiar à Irmandade do Santíssimo Sacramento. Nesse mesmo ano de 1796, cumprindo-se seu desejo, foram celebradas 40 missas por sua alma na igreja das Mercês. 



    A reconstrução da história de Chica da Silva, a partir de novos documentos, lança luz sobre o tempo em que viveu e os significados de sua trajetória.Assim como outras ex-escravas, Chica alcançou a liberdade, amou, teve filhos, educou-os e buscou ascender socialmente, provavelmente desejando reduzir a marca que a condição de parda e forra impunha a ela e a seus descendentes. Inserção contraditória, ao buscar o reconhecimento da sociedade branca, foi, porém, a única maneira que mulheres como ela encontraram para retomar o controle sobre suas vidas, acumulando bens, transitando entre as irmandades, tornando-se senhora de escravos. Seu itinerário é revelador também das relações entre os grupos étnicos nas Minas Gerais do século XVIII. Sob o manto de pretensa democracia racial, sutil e veladamente uma sociedade mestiça procurava branquear-se e escapar por variados recursos, inclusive a dissimulação, da fria exclusão sociorracial. 



    Transferido para o lado de fora do templo, em sepultura vertical, o corpo de Chica da Silva permaneceu esquecido na igreja de São Francisco, se for mesmo verdade o relato de Antônio Torres. O tempo, no entanto, perpetuou a memória da parda Chica da Silva e de sua união com o poderoso contratador dos diamantes. Ao contrário das inúmeras mulheres negras que povoaram as ruas do Tejuco setecentista, cuja lembrança se dissolveu nos séculos, sua trajetória imortalizou-se no mito da "Chica que manda". 



     Júnia Ferreira Furtado é 

Professora do Departamento de História

da Universidade Federal de Minas Gerais.





















Chica da Silva: Senhora sem procedência

A escrava Chica da Silva conquistou o homem mais poderoso das Minas Gerais. Ele comprou sua liberdade e a tornou rica. Mais que isso: a ex-cativa ganhou respeito

por Flávia Ribeiro
Francisca nasceu pobre e escrava. Conseguiu a liberdade após viver em concubinato com um homem branco. Ficou rica e conquistou um espaço na sociedade. Isso não era lá algo incomum no Brasil do século 18. Nossa Francisca talvez não fosse citada sequer uma vez em livros se não tivesse se envolvido com um dos homens mais ricos do país na época. Depois de seu relacionamento com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, ela virou Chica da Silva.
E Chica da Silva se transformou em um mito. Como ocorre com todos eles, muito foi dito – grande parte, porém, não era verdade ou não tem qualquer comprovação histórica. Ganhou diversos livros,filme no cinema e novela na extinta TV Manchete. Entre outras coisas, Chica foi descrita como perdulária, devoradora de homens, bruxa. O primeiro homem a escrever sobre a ex-escrava em livrofoi Joaquim Felício dos Santos, com suas Memórias do Distrito Diamantino, de 1853. Vista à luz da sociedade do século 19, para quem mulatas como Chica eram dignas de desprezo, ela foi apresentada como uma mulher que “não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim, não possuía atrativo algum que pudesse justificar uma forte paixão”. Era feia, de feições grosseiras, e escondia a cabeça raspada sob perucas, diziam.
Mesmo negativas, as citações a Chica em diversos outros livros da época a fizeram conhecida. Só na segunda metade do século 20, no entanto, ela ganhou aspectos positivos. Passou a ser descrita como bela, o que justificaria a paixão de um homem branco e rico como o contratador de diamantes. O que antes era visto como ato perdulário, como viver cercada de luxo e riqueza, virou sinônimo de refinamento. Tornou-se ainda, num período marcado pelo nacional-desenvolvimentismo ufanista, “a primeira heroína da nascente nacionalidade brasileira, redentora da sua raça”, segundo afirma a historiadora Júnia Ferreira Furtado em Chica da Silva e o Contratador de Diamantes, a mais completa biografia da ex-escava já escrita.
Nos anos 70, surgiu a imagem de Chica que permanece até hoje: sensual, libertária, de sexualidade aflorada. Um novo mito foi criado pelo livro Xica da Silva, de João Felício dos Santos, sobrinho-neto de Joaquim Felício dos Santos, e difundido pelo filme homônimo de Cacá Diegues, ambos de 1976. Além da substituição do “Ch” pelo “X”, a personagem ganhou a beleza de Zezé Motta e a liberação de costumes da mulher daquela década, marcada pela revolução sexual. “Chica é uma personagem com várias construções. A virada do mito, com Cacá Diegues, na verdade diz mais sobre os anos 70 do que sobre a mulher que retrata”, afirma a historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e co-autora do livro para-didático Para Conhecer Chica da Silva.
Outras Chicas
Em 1953, a poetisa Cecília Meireles versava em seu Romanceiro da Inconfidência: “Ainda vai chegar o dia / de nos virem perguntar / – Quem foi Chica da Silva, / que viveu neste lugar?” Pois então: afinal, quem foi ela? Livre dos anacronismos dos séculos subseqüentes, Chica da Silva não foi uma exceção. Foi, sim, um produto de seu tempo. “Muitas ex-escravas afirmavam seguidamente que sua condição de liberta devia-se a elas próprias”, afirma Júnia Furtado, que é professora da Universidade Federal deMinas Gerais. “Mais de 50% dos chefes de domicílio no arraial do Tejuco (como era chamado, então, o distrito de Diamantina) na época eram mulheres libertas, ex-escravas.”
Havia, portanto, muitas outras Chicas, ex-escravas que viviam como senhoras. Muitas eram amantes ou mesmo casadas com homens brancos e poderosos. Outras viviam de seu próprio trabalho, ligado, em grande parte das vezes, ao comércio. Não só no Tejuco, como diz Júnia: “Essa formação social era típica de áreas urbanas, e a região da mineração foi a área mais urbanizada da colônia”. Para ela, Chica passou a ser vista como única porque, objeto de livro, não se perdeu a memória da sua existência. “Já as demais ficaram sob o manto do esquecimento a que a sociedade machista, escravocrata e tradicional do século 19 as relegou”, afirma.
Em 1774, época de Chica, havia 511 residências no Tejuco. Dessas, 282 eram chefiadas por homens livres ou forros – apenas 89 eram negros ou mulatos. No entanto, as outras 229 casas eram comandadas por mulheres livres ou forras. E, dessas, 197 eram negras ou mulatas. Incluindo Chica. Elas se misturaram à sociedade branca. Eram escravas que ganharam a alforria, foram concubinas de brancos ricos, tiveram filhos com eles, enriqueceram, montaram um patrimônio, freqüentaram a Igreja e participaram de ordens religiosas de elite, reproduzindo o modo de vida das brancas, para serem aceitas.
Sobre Chica, não se sabe ao certo quando nasceu, apenas que foi entre 1731 e 1735, no arraial do Milho Verde, perto do Tejuco. Não era negra, e sim parda – o pai dela, Antônio Caetano de Sá, era branco, e sua mãe, Maria da Costa, era uma escrava africana da Costa da Mina. Embora não haja comprovação histórica, acredita-se que Chica era uma mulher bonita, já que atraiu um homem poderoso.
Escrava do médico Manuel Pires Sardinha, ela se envolveu com seu proprietário e foi mãe de Simão Pires Sardinha, nascido em 1751. Dois anos depois, foi viver com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, que a comprou. Acredita-se que Sardinha a vendeu porque teria se comprometido com a Igreja a deixar de viver ilicitamente com duas de suas escravas – Chica, como se sabe, era uma delas. Poucos meses após comprá-la, em pleno Natal de 1753, João Fernandes deu a alforria a Chica. Data do ano seguinte o primeiro documento que a apresenta como a parda forra Francisca da Silva. Naquela época, o sobrenome Silva, bastante adotado no mundo português, indicava o sujeito sem procedência ou origem definida.
Mulher de poderoso
Nossa “Francisca sem procedência” passou a assinar Francisca da Silva de Oliveira depois que a primeira filha do casal, Francisca de Paula, nasceu, em 1755. “Foi com esse nome que Chica iniciou uma nova etapa em sua vida, em que se afirmava no mundo livre por seus próprios meios, porém conectada ao homem ao qual permaneceria ligada até o fim de seus dias”, escreveu Júnia. A nova vida de Chica foi bem diferente daquela a que estava acostumada. Graças à união com o contratador de diamantes, o homem mais poderoso da região, ela ascendeu socialmente e ganhou privilégios. Pôde, por exemplo, freqüentar igrejas e irmandades. Chegou a ser madrinha de batismo e casamento inúmeras vezes – o que prova sua boa posição na rede de relações da cidade, já que era costume escolher para madrinha pessoas influentes. Entre as ordens religiosas, freqüentou algumas que, teoricamente, eram apenas para brancos, como a Irmandade do Carmo, a mais elitista de Tejuco.
Chica não se transformou apenas em uma pessoa rica – também ganhou respeito. Parte disso deve-se ao fato de ter virado uma espécie de mecenas da região. Costumava promover bailes e peças de teatro. “Uma mulata podia virar uma dama e ninguém tocava no assunto”, diz a historiadora Sheila Siqueira de Castro Faria, diretora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de artigos sobre mulheres forras, como “Sinhás Pretas: Acumulação de Pecúlio e Transmissão de Bens de Mulheres Forras no Sudeste Escravista”. Apesar disso, era analfabeta, embora tenha aprendido ao menos a assinar o nome, libertando-se de mais um estigma.
A ex-escrava teve ainda uma legião de escravos. Eram pelo menos 104, negros como sua mãe ou mulatos como ela. A maioria das negras forras tinha escravos – ou para se afastar do mundo do trabalho, como as senhoras brancas, ou para trabalhar com elas, aumentando sua riqueza. “A filosofia abolicionista é do século 19. No 18, quando Chica viveu, não havia nenhuma incoerência no africano vir como escravo e, ao virar livre, comprar seus próprios escravos”, diz Sheila. A própria mãe de Chica, Maria da Costa, foi escrava de um ex-escravo, Domingos da Costa.
Ainda contrariando os mitos criados em torno dela, Chica tampouco era uma devoradora de homens. Teve filhos com apenas dois. O primeiro ainda com seu primeiro dono, o médico. Todos os outros 13 rebentos tiveram o mesmo homem como pai, João Fernandes, durante os 17 anos em que viveram juntos. Os dois nunca foram casados oficialmente, mas viveram em concubinato até o contratador de diamantes viajar para Portugal, em 1770 – ele foi defender sua herança após a morte do pai e não voltou mais.
João Fernandes morreu em 1779. Sete anos depois, em 16 de fevereiro de 1796, foi a vez de Chica, cuja cerimônia fúnebre foi “cercada de toda pompa a que ela tinha direito como irmã do Santíssimo, de São Francisco de Assis, das Almas, da Terra Santa, das Mercês e do Rosário”, relata Júnia Furtado. Quando morreu, segundo a autora, “não era mais uma escrava parda sem nada de seu; era senhora de ‘grossa casa’, possuidora de bens imóveis e numerosos escravos”. Era, já havia mais de 40 anos, uma mulher importante, que viveu com um homem poderoso, acumulou fortuna e se tornou, como disse Cecília Meireles também no Romanceiro da Inconfidência, “a Chica-que-manda!”

Prole embranquecida

Um dos filhos de Chica se envolveu com os inconfidentes mineiros
Chica da Silva lutou para livrar os filhos do estigma da cor e da escravidão. Todos esconderam do jeito que puderam o passado de ex-escrava da mãe, para assim continuar a ascender socialmente. João Fernandes conseguiu que dom José I, o rei de Portugal, legitimasse todos os rebentos.
A tentativa de “embranquecer” a prole tinha um objetivo: garantir o futuro de todos na sociedade. Para isso, Chica mandou todos os cinco filhos homens estudarem em Portugal e as mulheres, em um convento. De todos os herdeiros, quem mais se destacou foi o filho mais velho, Simão Pires Sardinha. Graduou-se em Artes em Lisboa, virou membro da Ordem de Cristo – “a maior honraria que um indivíduo não nobre poderia almejar”, segundo a historiadora Júnia Ferreira Furtado –, sócio-correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, sargento-mor das ordenanças das Minas Gerais e almoxarife do Reino. Em 1788, Simão envolveu-se com os participantes da Inconfidência Mineira – embora nunca tenha sido formalmente acusado disso. De acordo com Júnia, “foi Simão que mandou avisar o alferes (Tiradentes) de que estava sob vigia e que sua prisão era iminente”.

O brilho do diamante

Companheiro da ex-escrava tinha autorização para explorar a pedra preciosa
Brasileiro, filho do sargento-mor português João Fernandes de Oliveira com a carioca Maria Inês de Souza, João Fernandes nasceu em 1727 e ficou rico quando, em 1739, seu pai arrematou seu primeiro contrato de exploração de diamantes da demarcação Diamantina – área em torno do arraial do Tejuco que incluía povoados como Milho Verde, Gouveia, São Gonçalo, Chapada e Rio Manso. Era ele o responsável por controlar o fluxo de diamantes da região e o pagamento à Coroa portuguesa. João Fernandes estudou em Portugal, na Universidade de Coimbra, e formou-se doutor em Cânones, o que o habilitava ao exercício do direito civil e do canônico. Tornou-se cavaleiro da Ordem do Cristo e, aos 25 anos, desembargador. De volta ao Brasil, seguiu para o Tejuco, onde assumiu o quarto contrato diamantino conquistado por seu pai. Foi esse homem de formação acadêmica impecável que, aos 26 anos, encantou-se com Chica, na época ainda uma escrava com entre 18 e 22 anos e já mãe de Simão. Controlando a extração de diamantes, João Fernandes acumulou incrível riqueza. Chica também. Tanto que, mesmo após a ida dele para Portugal, a ex-escrava manteve a riqueza e a influência.

Saiba mais

Chica da Silva e o Contratador de Diamantes – O Outro Lado do Mito, Júnia Ferreira Furtado, Companhia das Letras, 2006
Mais completo estudo sobre Chica da Silva, a biografia revela ainda, através de minuciosa pesquisa, como vivia a sociedade diamantina do século 18. Em especial, descreve a trajetória de dezenas de outras forras do período, provando que a trajetória de Chica não foi uma exceção.

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